terça-feira, 28 de outubro de 2025

Crítica do filme - A Conspiração Consumista: Quando o capitalismo também tem roteiro

O documentário The Great Consumer Conspiracy (A Conspiração Consumista) pretende ser um espelho incômodo do capitalismo moderno — e até é. O problema é que esse espelho reflete quase sempre a América e seu narcisismo de crise. Bem-intencionado, tecnicamente competente, o filme acaba dizendo mais sobre o imaginário norte-americano do que sobre o consumo global.

Todo documentário que se propõe a “abrir os olhos do público” carrega um risco: o de repetir a mesma fórmula de alerta que ele próprio denuncia. A Conspiração Consumista é um caso exemplar. Da trilha grave aos cortes frenéticos de dados e gráficos, da voz em off indignada ao desfile de especialistas, tudo soa familiar como se tivéssemos assistido a isso antes, e de fato assistimos.

O déjà vu é inevitável. The Social Dilemma (O Dilema das Redes, 2020) abriu caminho para uma estética do colapso digital: imagens em tons frios, simulações gráficas, entrevistas em contraluz. Desde então, a Netflix vem empacotando a crítica ao capitalismo em formato de entretenimento. A Conspiração Consumista apenas herda e repete essa gramática. A diferença é que, aqui, o foco sai das redes sociais e mira o consumo material, mas com o mesmo discurso de “estamos presos a um sistema que nos manipula”.

O que queria?

A ambição é clara: denunciar a engrenagem de obsolescência e desperdício que sustenta o estilo de vida americano. O filme pretende mostrar como empresas e publicitários criaram, ao longo do século XX, o mito do consumo como felicidade e como essa promessa se transformou numa armadilha ecológica e emocional.

Do ponto de vista narrativo, há uma lógica de tribunal: o capitalismo é o réu, e o espectador, o jurado. Mas, como toda boa corte midiática, o veredito já vem pronto.

Conseguiu?

Parcialmente. O documentário é eficiente em dados e imagens: planos acelerados de lixeiras transbordando de eletrônicos, planos-detalhe de celulares desmontados, uma sequência potente de drones filmando montanhas de lixo tecnológico. Esses instantes visuais funcionam como choque sensorial o “horror do excesso” materializado na tela.

Mas falta complexidade cultural. O recorte é essencialmente estadunidense, e o filme não se esforça para escondê-lo. Quando fala de “nossa sociedade”, entende-se “a deles”. É o consumo como pecado nacional narrado com culpa protestante e ritmo de publicidade.

O problema é que essa bolha estética e geográfica impede o filme de dialogar com outras realidades. No Brasil, por exemplo, a lógica do consumo é muito mais marcada pela precariedade e pela reinvenção. Aqui, celulares trocam de dono antes de morrer, peças se reaproveitam, o improviso vira ecologia. A engrenagem é a mesma, mas as bordas são outras.

O documentário, no entanto, ignora essas nuances e, ao ignorá-las, repete o gesto que critica: o da hegemonia cultural americana que se coloca no centro da crise mundial. Até nos problemas, os Estados Unidos exportam estilo de vida.

Valeu a pena?

Vale como síntese de um mal-estar de época. A Conspiração Consumista não traz ideias novas, mas recompõe de forma visualmente sedutora um diagnóstico que continua urgente: o planeta não aguenta mais nosso modo de viver.

A direção (nome não fornecido) é precisa na estética, mesmo quando previsível. A montagem cria tensão entre excesso e silêncio, um padrão de montagem que alterna saturação de informação e respiro contemplativo. É bonito, mas seguro.

Há um uso eficiente de material de arquivo: propagandas dos anos 1950, slogans sobre felicidade e consumo, close em rostos sorridentes enquanto a narração fala em “lavagem cultural”. O discurso é simples e direto, o que o torna acessível, mas também raso.

Do ponto de vista de linguagem, o documentário opera num regime de sobreposição: imagens de vitrines, celulares, drones, e uma voz que tenta costurar ética e culpa. Em certo momento, a trilha sonora parece quase zombar de si mesma grandiosa demais para o óbvio que narra.

O resultado é um filme que funciona como porta de entrada para o tema, mas não como reflexão de fôlego. Quem já viu The True Cost (O Verdadeiro Custo, 2015) ou Minimalism: A Documentary About the Important Things (Minimalismo: Um Documentário Sobre as Coisas Importantes, 2016) vai reconhecer o molde e talvez sentir o cansaço.


Como o filme faz o que faz

  • Roteiro: estrutura didática, com perguntas e respostas pré-formatadas.

  • Direção: boa curadoria de imagens, mas sem ousadia estética.

  • Montagem: alternância entre saturação e pausa, típica do documentário de impacto.

  • Fotografia: luz fria, tons azulados, contraste entre brilho de telas e cinza de aterros.

  • Som: trilha grave e onipresente, às vezes excessiva.

  • Design de produção: uso simbólico de ambientes industriais e lixo eletrônico como textura visual.


Veredito

Nota: 7,0

Por quê:

  • Potente como síntese visual do consumismo.

  • Limitado pelo recorte geográfico e pela fórmula narrativa.

  • Falta pluralidade cultural: América Latina, Ásia e África ficam invisíveis.

Para quem:
Espectadores interessados em crítica social acessível, fãs de The Social Dilemma (O Dilema das Redes) e The True Cost (O Verdadeiro Custo), e quem gosta de refletir sobre consumo, lixo eletrônico e ética ambiental.


Para guardar

  • O plano-sequência das lixeiras de smartphones — quase uma coreografia do descarte.

  • A justaposição de comerciais antigos com cenas de aterros.

  • A ironia involuntária da frase final: “Consumir é o que nos faz humanos.”


Se curtiu, veja também

  • The True Cost (O Verdadeiro Custo, Andrew Morgan, 2015)

  • The Social Dilemma (O Dilema das Redes, Jeff Orlowski, 2020)

  • Minimalism: A Documentary About the Important Things (Minimalismo: Um Documentário Sobre as Coisas Importantes, Matt D’Avella, 2016)


Serviço

Direção: Nic Stacey
Produção: EUA, 2024
Duração: 100 min
Classificação: 12 anos
Onde ver: Netflix
Idiomas: inglês (legendado)
Spoilers: não
Gênero: documentário / crítica social

Crítica do filme - Babygirl”: o desconforto é o ponto

Em vez de erotismo fácil ou moralismo moralista, Babygirl encena o colapso das certezas. A diretora holandesa Halina Reijn cria um jogo de forças entre uma estrela de cinema e seu segurança que parece sobre o amor, mas é, na verdade, sobre controle, performance e espelho. O filme não busca “química” e é justamente por isso que funciona.


O cinema erótico quase sempre se sustenta no pacto da fantasia: corpos que se desejam, planos que prometem fusão. Babygirl rasga esse contrato. O que se instala ali é uma fricção sem descarga, uma tensão que se acumula e nunca se resolve. A “não química” que muitos críticos apontaram é o motor da mise-en-scène — uma negação calculada que expõe o teatro do desejo.

Reijn sabe onde pisa. Sua câmera nunca entrega o prazer; ela o adia, o devolve como constrangimento. A lente fixa, os espelhos emoldurando o corpo da protagonista (Nicole Kidman), a luz fria que corta o apartamento minimalista — tudo ali fabrica distância. O olhar da diretora é quase clínico, como se dissesse: “você acha que está vendo um jogo de sedução, mas o que está vendo é o desconforto de quem precisa performá-lo”.


O que queria?

Halina Reijn parece querer testar o limite da vulnerabilidade na cultura da autoexposição. A atriz que tenta controlar sua imagem, o guarda-costas que encarna uma masculinidade funcional e quase servil ambos são avatares de uma geração Z emocionalmente cínica, habituada à câmera, ao papel, ao contrato. O BDSM entra como metáfora: não de prazer, mas de consentimento negociado num mundo saturado de performance.

Conseguiu?

Conseguiu, e justamente porque Babygirl se recusa a agradar. O que muitos chamaram de “ausência de química” é, de fato, o gesto mais radical da direção. Reijn filma a frieza como linguagem: cortes secos, planos longos que se alongam até o desconforto, diálogos que soam ensaiados demais para serem espontâneos — como se o filme próprio se amarrasse na sua corda. A montagem de Job ter Burg sustenta esse jogo de falsa intimidade: um ritmo compassado, hipnótico, que ecoa o ritual do domínio e da entrega.

Nicole Kidman entrega uma atuação de camadas finas: uma mulher tentando parecer “madura” enquanto se desmancha no controle. Harris Dickinson, o guarda-costas, é o oposto: uma presença física que evita o olhar. Quando se tocam, o contato parece ensaiado o sexo, uma coreografia. Essa ausência de faísca, filmada com precisão quase cruel, é o que dá à obra sua estranheza.

Valeu a pena?

Valeu e muito para quem aceita que o cinema de Reijn não é sobre identificação, mas sobre fricção. Babygirl é um filme que observa a geração do “overshare” pessoas que aprendem a desejar sob vigilância, que performam fragilidade e confundem exposição com intimidade. Reijn traduz esse mal-estar com precisão formal: uma mise-en-scène que lembra Michael Haneke em Amour (Amor, 2012) e Benny’s Video (O Sétimo Continente, 1992), mas com a ironia pós-Instagram de Bodies Bodies Bodies (Morte Morte Morte, 2022).

No plano formal, o filme opera em três níveis:

  • Plano: o enquadramento privilegia superfícies — vidro, reflexo, espelho. O corpo é sempre observado, nunca entregue.

  • Sequência: a montagem cria pausas longas e silêncios que sabotam o fluxo narrativo; a tensão nasce do intervalo, não do clímax.

  • Filme: a estrutura repete a dinâmica de um contrato BDSM: limite, transgressão, culpa e volta à regra. É um loop de poder que nunca se resolve.

O som, por sua vez, reforça o distanciamento. Nada é incidental: o estalo de um cinto, o som abafado de uma respiração, o silêncio que grita mais do que qualquer trilha. É cinema sensorial sem erotismo — ou melhor, erotismo como desconforto.

Halina Reijn, que já explorou a vaidade e a crueldade das redes em Bodies Bodies Bodies (Morte Morte Morte), agora mira o desejo como performance de classe. O apartamento high-tech é uma jaula dourada. O guarda-costas, o proletário do corpo. A câmera, o olhar que devora. Tudo encaixa nesse teatro de dominação consentida que nunca é igual para os dois lados.

O resultado é um filme que provoca mais perguntas do que certezas. Quem manipula quem? Onde termina o contrato e começa o abuso? O BDSM é aqui um idioma simbólico — a tradução visual de um pacto social mais amplo: o de viver sob exposição constante, negociar o próprio prazer como se fosse um conteúdo.


Como o filme faz o que faz

  • Roteiro: estrutura circular que imita a repetição do desejo e do poder.

  • Direção: controle absoluto da mise-en-scène, recusando empatia fácil.

  • Atuação: Kidman e Dickinson exploram o vazio entre intenção e gesto.

  • Fotografia: iluminação fria e geometrias rígidas (David Gallego), traduzindo o claustro emocional.

  • Montagem: alternância entre imobilidade e cortes abruptos.

  • Som: uso dramático do silêncio e de texturas físicas (respiração, couro, vidro).

  • Design de produção: espaços assépticos e simbólicos — o luxo como prisão.


Veredito

Nota: 8,2

Por quê:

  • Direção coerente e provocadora, sem medo do desconforto.

  • Fotografia e som constroem atmosfera de tensão elegante.

  • Estrutura narrativa que desafia o espectador, embora um pouco fria no terceiro ato.

Para quem:
Espectadores que apreciam cinema de tensão psicológica, erotismo intelectualizado e experiências formais — de The Duke of Burgundy (O Duque de Burgundy, 2014) a Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados, 1999).


Para guardar

  • A cena do espelho duplo — corpo, reflexo e câmera num mesmo eixo.

  • O diálogo em que “desejo” vira “trabalho”.

  • O close final: olhar que não é rendição, mas cálculo.


Se curtiu, veja também

  • The Duke of Burgundy (O Duque de Burgundy, Peter Strickland, 2014)

  • Anatomy of a Fall (Anatomia de uma Queda, Justine Triet, 2023)

  • Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados, Stanley Kubrick, 1999)


Serviço

Direção: Halina Reijn
Elenco: Nicole Kidman, Harris Dickinson
País/Ano: EUA, 2024
Duração: 117 min
Classificação: 18 anos
Onde ver: cinemas / futura estreia em streaming
Idiomas: inglês
Spoilers: não
Gênero: drama psicológico / erótico de poder