O documentário The Great Consumer Conspiracy (A Conspiração Consumista) pretende ser um espelho incômodo do capitalismo moderno — e até é. O problema é que esse espelho reflete quase sempre a América e seu narcisismo de crise. Bem-intencionado, tecnicamente competente, o filme acaba dizendo mais sobre o imaginário norte-americano do que sobre o consumo global.
Todo documentário que se propõe a “abrir os olhos do público” carrega um risco: o de repetir a mesma fórmula de alerta que ele próprio denuncia. A Conspiração Consumista é um caso exemplar. Da trilha grave aos cortes frenéticos de dados e gráficos, da voz em off indignada ao desfile de especialistas, tudo soa familiar como se tivéssemos assistido a isso antes, e de fato assistimos.O déjà vu é inevitável. The Social Dilemma (O Dilema das Redes, 2020) abriu caminho para uma estética do colapso digital: imagens em tons frios, simulações gráficas, entrevistas em contraluz. Desde então, a Netflix vem empacotando a crítica ao capitalismo em formato de entretenimento. A Conspiração Consumista apenas herda e repete essa gramática. A diferença é que, aqui, o foco sai das redes sociais e mira o consumo material, mas com o mesmo discurso de “estamos presos a um sistema que nos manipula”.
O que queria?
A ambição é clara: denunciar a engrenagem de obsolescência e desperdício que sustenta o estilo de vida americano. O filme pretende mostrar como empresas e publicitários criaram, ao longo do século XX, o mito do consumo como felicidade e como essa promessa se transformou numa armadilha ecológica e emocional.
Do ponto de vista narrativo, há uma lógica de tribunal: o capitalismo é o réu, e o espectador, o jurado. Mas, como toda boa corte midiática, o veredito já vem pronto.
Conseguiu?
Parcialmente. O documentário é eficiente em dados e imagens: planos acelerados de lixeiras transbordando de eletrônicos, planos-detalhe de celulares desmontados, uma sequência potente de drones filmando montanhas de lixo tecnológico. Esses instantes visuais funcionam como choque sensorial o “horror do excesso” materializado na tela.
Mas falta complexidade cultural. O recorte é essencialmente estadunidense, e o filme não se esforça para escondê-lo. Quando fala de “nossa sociedade”, entende-se “a deles”. É o consumo como pecado nacional narrado com culpa protestante e ritmo de publicidade.
O problema é que essa bolha estética e geográfica impede o filme de dialogar com outras realidades. No Brasil, por exemplo, a lógica do consumo é muito mais marcada pela precariedade e pela reinvenção. Aqui, celulares trocam de dono antes de morrer, peças se reaproveitam, o improviso vira ecologia. A engrenagem é a mesma, mas as bordas são outras.
O documentário, no entanto, ignora essas nuances e, ao ignorá-las, repete o gesto que critica: o da hegemonia cultural americana que se coloca no centro da crise mundial. Até nos problemas, os Estados Unidos exportam estilo de vida.
Valeu a pena?
Vale como síntese de um mal-estar de época. A Conspiração Consumista não traz ideias novas, mas recompõe de forma visualmente sedutora um diagnóstico que continua urgente: o planeta não aguenta mais nosso modo de viver.
A direção (nome não fornecido) é precisa na estética, mesmo quando previsível. A montagem cria tensão entre excesso e silêncio, um padrão de montagem que alterna saturação de informação e respiro contemplativo. É bonito, mas seguro.
Há um uso eficiente de material de arquivo: propagandas dos anos 1950, slogans sobre felicidade e consumo, close em rostos sorridentes enquanto a narração fala em “lavagem cultural”. O discurso é simples e direto, o que o torna acessível, mas também raso.
Do ponto de vista de linguagem, o documentário opera num regime de sobreposição: imagens de vitrines, celulares, drones, e uma voz que tenta costurar ética e culpa. Em certo momento, a trilha sonora parece quase zombar de si mesma grandiosa demais para o óbvio que narra.
O resultado é um filme que funciona como porta de entrada para o tema, mas não como reflexão de fôlego. Quem já viu The True Cost (O Verdadeiro Custo, 2015) ou Minimalism: A Documentary About the Important Things (Minimalismo: Um Documentário Sobre as Coisas Importantes, 2016) vai reconhecer o molde e talvez sentir o cansaço.
Como o filme faz o que faz
-
Roteiro: estrutura didática, com perguntas e respostas pré-formatadas.
-
Direção: boa curadoria de imagens, mas sem ousadia estética.
-
Montagem: alternância entre saturação e pausa, típica do documentário de impacto.
-
Fotografia: luz fria, tons azulados, contraste entre brilho de telas e cinza de aterros.
-
Som: trilha grave e onipresente, às vezes excessiva.
-
Design de produção: uso simbólico de ambientes industriais e lixo eletrônico como textura visual.
Veredito
Nota: 7,0
Por quê:
-
Potente como síntese visual do consumismo.
-
Limitado pelo recorte geográfico e pela fórmula narrativa.
-
Falta pluralidade cultural: América Latina, Ásia e África ficam invisíveis.
Para quem:
Espectadores interessados em crítica social acessível, fãs de The Social Dilemma (O Dilema das Redes) e The True Cost (O Verdadeiro Custo), e quem gosta de refletir sobre consumo, lixo eletrônico e ética ambiental.
Para guardar
-
O plano-sequência das lixeiras de smartphones — quase uma coreografia do descarte.
-
A justaposição de comerciais antigos com cenas de aterros.
-
A ironia involuntária da frase final: “Consumir é o que nos faz humanos.”
Se curtiu, veja também
-
The True Cost (O Verdadeiro Custo, Andrew Morgan, 2015)
-
The Social Dilemma (O Dilema das Redes, Jeff Orlowski, 2020)
-
Minimalism: A Documentary About the Important Things (Minimalismo: Um Documentário Sobre as Coisas Importantes, Matt D’Avella, 2016)
Serviço
Direção: Nic Stacey
Produção: EUA, 2024
Duração: 100 min
Classificação: 12 anos
Onde ver: Netflix
Idiomas: inglês (legendado)
Spoilers: não
Gênero: documentário / crítica social

