Em vez de erotismo fácil ou moralismo moralista, Babygirl encena o colapso das certezas. A diretora holandesa Halina Reijn cria um jogo de forças entre uma estrela de cinema e seu segurança que parece sobre o amor, mas é, na verdade, sobre controle, performance e espelho. O filme não busca “química” e é justamente por isso que funciona.
Reijn sabe onde pisa. Sua câmera nunca entrega o prazer; ela o adia, o devolve como constrangimento. A lente fixa, os espelhos emoldurando o corpo da protagonista (Nicole Kidman), a luz fria que corta o apartamento minimalista — tudo ali fabrica distância. O olhar da diretora é quase clínico, como se dissesse: “você acha que está vendo um jogo de sedução, mas o que está vendo é o desconforto de quem precisa performá-lo”.
O que queria?
Halina Reijn parece querer testar o limite da vulnerabilidade na cultura da autoexposição. A atriz que tenta controlar sua imagem, o guarda-costas que encarna uma masculinidade funcional e quase servil ambos são avatares de uma geração Z emocionalmente cínica, habituada à câmera, ao papel, ao contrato. O BDSM entra como metáfora: não de prazer, mas de consentimento negociado num mundo saturado de performance.
Conseguiu?
Conseguiu, e justamente porque Babygirl se recusa a agradar. O que muitos chamaram de “ausência de química” é, de fato, o gesto mais radical da direção. Reijn filma a frieza como linguagem: cortes secos, planos longos que se alongam até o desconforto, diálogos que soam ensaiados demais para serem espontâneos — como se o filme próprio se amarrasse na sua corda. A montagem de Job ter Burg sustenta esse jogo de falsa intimidade: um ritmo compassado, hipnótico, que ecoa o ritual do domínio e da entrega.
Nicole Kidman entrega uma atuação de camadas finas: uma mulher tentando parecer “madura” enquanto se desmancha no controle. Harris Dickinson, o guarda-costas, é o oposto: uma presença física que evita o olhar. Quando se tocam, o contato parece ensaiado o sexo, uma coreografia. Essa ausência de faísca, filmada com precisão quase cruel, é o que dá à obra sua estranheza.
Valeu a pena?
Valeu e muito para quem aceita que o cinema de Reijn não é sobre identificação, mas sobre fricção. Babygirl é um filme que observa a geração do “overshare” pessoas que aprendem a desejar sob vigilância, que performam fragilidade e confundem exposição com intimidade. Reijn traduz esse mal-estar com precisão formal: uma mise-en-scène que lembra Michael Haneke em Amour (Amor, 2012) e Benny’s Video (O Sétimo Continente, 1992), mas com a ironia pós-Instagram de Bodies Bodies Bodies (Morte Morte Morte, 2022).
No plano formal, o filme opera em três níveis:
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Plano: o enquadramento privilegia superfícies — vidro, reflexo, espelho. O corpo é sempre observado, nunca entregue.
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Sequência: a montagem cria pausas longas e silêncios que sabotam o fluxo narrativo; a tensão nasce do intervalo, não do clímax.
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Filme: a estrutura repete a dinâmica de um contrato BDSM: limite, transgressão, culpa e volta à regra. É um loop de poder que nunca se resolve.
O som, por sua vez, reforça o distanciamento. Nada é incidental: o estalo de um cinto, o som abafado de uma respiração, o silêncio que grita mais do que qualquer trilha. É cinema sensorial sem erotismo — ou melhor, erotismo como desconforto.
Halina Reijn, que já explorou a vaidade e a crueldade das redes em Bodies Bodies Bodies (Morte Morte Morte), agora mira o desejo como performance de classe. O apartamento high-tech é uma jaula dourada. O guarda-costas, o proletário do corpo. A câmera, o olhar que devora. Tudo encaixa nesse teatro de dominação consentida que nunca é igual para os dois lados.
O resultado é um filme que provoca mais perguntas do que certezas. Quem manipula quem? Onde termina o contrato e começa o abuso? O BDSM é aqui um idioma simbólico — a tradução visual de um pacto social mais amplo: o de viver sob exposição constante, negociar o próprio prazer como se fosse um conteúdo.
Como o filme faz o que faz
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Roteiro: estrutura circular que imita a repetição do desejo e do poder.
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Direção: controle absoluto da mise-en-scène, recusando empatia fácil.
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Atuação: Kidman e Dickinson exploram o vazio entre intenção e gesto.
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Fotografia: iluminação fria e geometrias rígidas (David Gallego), traduzindo o claustro emocional.
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Montagem: alternância entre imobilidade e cortes abruptos.
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Som: uso dramático do silêncio e de texturas físicas (respiração, couro, vidro).
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Design de produção: espaços assépticos e simbólicos — o luxo como prisão.
Veredito
Nota: 8,2
Por quê:
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Direção coerente e provocadora, sem medo do desconforto.
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Fotografia e som constroem atmosfera de tensão elegante.
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Estrutura narrativa que desafia o espectador, embora um pouco fria no terceiro ato.
Para quem:
Espectadores que apreciam cinema de tensão psicológica, erotismo intelectualizado e experiências formais — de The Duke of Burgundy (O Duque de Burgundy, 2014) a Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados, 1999).
Para guardar
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A cena do espelho duplo — corpo, reflexo e câmera num mesmo eixo.
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O diálogo em que “desejo” vira “trabalho”.
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O close final: olhar que não é rendição, mas cálculo.
Se curtiu, veja também
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The Duke of Burgundy (O Duque de Burgundy, Peter Strickland, 2014)
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Anatomy of a Fall (Anatomia de uma Queda, Justine Triet, 2023)
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Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados, Stanley Kubrick, 1999)
Serviço
Direção: Halina Reijn
Elenco: Nicole Kidman, Harris Dickinson
País/Ano: EUA, 2024
Duração: 117 min
Classificação: 18 anos
Onde ver: cinemas / futura estreia em streaming
Idiomas: inglês
Spoilers: não
Gênero: drama psicológico / erótico de poder

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